segunda-feira, 9 de junho de 2014

Um Olhar A Deriva

Capítulo V.

Um mistério
               
                Vera Lúcia sempre foi uma mulher diferente, quando menina era o oposto em relação às meninas de sua idade. Lia muito, muito atenta as conversas dos mais velhos, analisava sempre a opinião de cada pessoa que falava sobre política, comportamentos e costumes das pessoas, ficava encafifada com as opiniões e atitudes das pessoas, às vezes a pessoa dizia uma coisa, mas fazia exatamente o oposto. Aos 16 anos já tinha lido vários livros sobre política, economia, romances, debatia suas ideias com alguns garotos da escola, mas preferia os professores e professoras, praticamente lera de tudo um pouco, drogas, músicas, sexo e alguns livros de filosofia e psicologia.
                Vera não gostava de batom ou qualquer tipo de maquiagem, a muito esforço do pai usara lápis nos olhos, pois para o pai lembrava as egípcias, devido ao fato dos egípcios terem uma história muito interessante pra ela, usava o lápis nos olhos, mas só isto. Ela tinha no pai um grande amigo, para a época era muito raro ver pai e filha serem tão próximos. Os pais de Lúcia nasceram e foram criados na zona rural da cidade, todavia, antes de Lúcia nascer resolveram mudar para a cidade, para o Bairro da Gasosa na Rua Pau da Bandeira. O pai montara uma venda de produtos agrícolas, na esquina da rua Mata Cachorros com a rua Cacete Armado, a venda no início era bem modesta, mas o movimento das vendas indicava que prosperaria em um futuro muito próximo.
                A casa era bem confortável, quartos grandes, duas salas, banheiro dentro de casa, um jardim na frente da casa e a divisa do quintal era um córrego não muito estreito que corria em ziguezague. Entre o córrego e a casa havia uma moita de bambu enorme, todos gostavam da moita de bambu devido ou som que era produzido quando as correntes de ar passavam entre os bambus. A frente da casa era fechada por uma cerca de madeira, as tábuas muito bem talhadas e muito bem tratadas com selador e verniz, nas laterais era uma cerca de arame farpado de sete pernas, ao fundo era apenas o córrego. A moita de bambu formava uma parede de tão densa que, quem estava entre a moita e o córrego não conseguia ver a casa, quem estava na casa não conseguia ver se havia gente atrás da moita.
                O córrego dos Prazeres também era divisa para outra casa, casa esta muito grande e bonita, para chegar a casa partindo do córrego até a casa tinha que ir por uma trilha muito estreita, pois o mato era muito denso e com árvores altas, a distância era entorno de vinte metros, gastava o tempo de andar cem metros no limpo e era impossível andar na trilha sem fazer barulho. Nesta casa morava o senhor Thomás T. Urbano Fortes sua esposa a senhora Baudouine Bienvenue das Ventas, nascera em Malha de Pedras, na Bahia, mas era descendente da família dos Bienvenue da França. Thomás T. Urbano era descendente da família dos Thompson de Oklahoma, dos Estados Unidos, sua mãe nasceu em Aracoiaba no Pernambuco. Na casa eram três, o casal e um filho. Um mancebo.
                Lúcia acordou cedo, como fazia sempre nos dias de semana, o sol brilhava muito, mas algo escurecia ou fazia-a se sentir adentrar algum lugar desconhecido, sentia algo estranho dentro de si, um sentimento de solidão com abandono. Era um dia como tantos outros que tivera em sua vida, mas uma dúvida, algo a incomodava logo ao acordar, se vestiu, mas não para ir à escola, vestiu um vestido pouco usado de chita estampado com tulipas e bromélias, o vestido não tinha mangas e era largo e não passava dos joelhos, sempre usava com vestidos duas anáguas brancas, a primeira lisa a segunda trabalhada, as anáguas sempre eram de cor branco gelo, mas neste dia não as usou.
                O pai, senhor Pimpolho da Paz saia sempre mais cedo, neste dia sua mãe a senhora Clotildes Paciência da Paz seguiu com o marido para ajudá-lo, o último dia útil da semana era sempre o mais movimentado. Lúcia não tomou o rumo da escola, com seu vestido de chita, calçando uma rasteirinha seguiu rumo a moita de bambu. Contornou a moita, escolheu um lugar que parecia confortável e sentou na terra, apoiou as costas em um bambu, com os joelhos dobrados cruzou as pernas, levou as duas mãos por debaixo dos cabelos próximos as orelhas, curvou-se para baixou, fechou os olhos e mergulhou em pensamentos estranhos que lhe acordara.
Já havia lido sobre tais ideias, mas nunca refletira, nunca imaginou que uma leitura poderia lhe roubar um dia, um sentimento. Lúcia pensou por que pensava aquele pensamento, como ela podia pensar algo que estava pensando, quanto mais ela tentava retroceder, sempre percebia que algo estava na condição de observador daquilo que pensava. Pensou que, se a mente pode se distanciar do pensamento a mente é vazia, pois tudo que lhe vinha na mente era refletido como um espelho, um espelho reflete coisas que não estão no espelho, a mente seria um espelho sempre vazio que ao buscar lembranças na memória ou imagens e sons na realidade apenas os refletia. Se eu não tivesse memórias, não pudesse sentir as coisas me tocaram, não pudesse sentir o cheiro das coisas e me encontrasse num quarto escuro, eu não teria certeza de mim mesmo, eu seria como um espelho num lugar escuro!
Não assustou e nem abriu os olhos rapidamente, mas algo ou alguém lhe tocava levemente no ombro direito, percebera que era alguém, pois sentou se ao seu lado. Este que estava sentado ao seu lado segurou lhe a mão, não apertou nem a acariciou, apenas segurou de forma que transmitiu segurança, não imaginava quem poderia ser e por um momento também não queria, aquela paz, aquela segurança que um aperto de mão lhe trazia era tudo que precisava naquele momento.
Manteve os olhos fechados, afinal, por que deveria abrir os olhos rapidamente, por que não conhecer alguém sem poder lhe ver, pensava, se não podemos ver a verdade, talvez possamos senti-la. Se a pessoa que estiver usando algo que desaprovo, não serei condescendente com ele ou ela, afinal, quem garante que meus valores são certos ou meu mesmo. Podia perceber que as mãos não eram grandes, percebia um cheiro seco de madeira, talvez uma alfazema diferente, mais uma vez perguntou a si mesmo em pensamentos de olhos fechados: o que posso ver de olhos fechados quando sei que há coisas que os olhos abertos nunca me revelam?
A pessoa que estava ao seu lado entrelaçou seus dedos nos dedos de Lúcia e com a outra mão, muito levemente passou um dedo no ombro direito deslizando até o cotovelo e retrocedendo até o ombro.
_ O que é mais fascinante, um segredo ou um mistério? a pessoa lhe perguntou.
_ Ser um homem é manter o mistério de um segredo, ou revelar o mistério do segredo? perguntou Lúcia.
_ Ser homem é manter o mistério com seus segredos. Aqui neste momento, como posso saber quem eu sou se tu não me olhas! Como posso saber se sou bom ou ruim se seus olhos não me revelam, acredito que as pessoas nos identificam através do olhar, se tu me olhas, tenho ideias a meu respeito, afinal são seus olhos que há de me dizer o que sou para você.
- Toda moral será castigada sob o sol que alumia o homem. Um sussurro com os lábios muito próximos do ouvido de Lúcia fora assoprado para ela.
Lúcia de olhos fechados via um mar enorme surgindo a sua frente, as águas não lhe tocaram os pés, pois estava em cima de um rochedo, as ondas calmamente foram surgindo, longas uma das outras, mansas, sentia seu corpo se balançado pela maresia, pouco a pouco as ondas foram aumentando, crescendo e com intervalos curtos, o ritmo era perfeito ia aumentando aos poucos.
Primeiro foram as gotas que alcançaram os seus pés, o gosto do sal vinha na brisa, depois um arrepio da água gelada que alcançara até os calcanhares, o medo do mar desconhecido que  começava a lhe tomar surgiu, mas assim como surgiu foi com o regresso da onda e não voltou. O movimento das ondas lhe fazia sentir um balanço harmônico, a água fria o corpo quente lhe tomava os sentidos. O mar não parava de crescer, as ondas já lhe tomava até a cintura, com os lábios molhados pelas águas deste imenso mar imenso Lúcia deitou-se, manteve seus olhos fechados, pois tinha a certeza que não teria outro  mar a lhe aparecer como naquela manhã. Lúcia sentiu que sua alma mergulhou no mar, seu corpo já não sentia o frio da água, o calor do corpo e antes que sua alma voltasse a flor da água do mar sentiu que o tempo parou, as águas também, um princípio de calmaria que foi tomada por uma grande luz que surgiu no alto e explodiu nas águas do mar. As pequenas ondas que ainda apareciam ao longe recuaram mais e mais, assim como o mar aos poucos foi se desfazendo, pouco a pouco até não mais haver um mar apenas aquele que lhe sussurrava ao ouvido.
Todo o corpo de Lúcia estava tenso, músculos, nervos e mente. Aquele que estivera ao seu lado já ali não estava, mantendo os olhos fechados sentiu que mordera em alguma coisa, sentia um gosto estranho na boca, algo macio e firme, não era grande, mas parecia curvo. Lúcia não tocou nem curiosidade teve, desvencilhou sem tocar os dedos e continuou deitada ao lado da moita de bambu, ouvindo o som do vento que cortava os bambus e dormiu com as lembranças daquele mistério.