domingo, 17 de janeiro de 2016

Operação Lava Jato. Pior que a ditadura: Será?



Circula no meio jurídico uma carta e com ela estão colhendo assinaturas, afirmando que a operação lava jato que é coordenada pelo juiz Sérgio Moro é pior que a ditadura militar, será?
Tudo na vida é relativo, por mais que tentamos qualquer fato dado como certo, sempre haverá uma exceção da regra. Cada época tem suas particularidades e, o que se entendeu num dado período, um ano depois já é outro entendimento, dez anos depois, outro e assim sucessivamente. Assim sendo, me remeto a tentar entender por que alguns advogados que defendem pessoas que estão presas na operação lava jato estão assinando essa “santa e casta” carta, que afirmam abuso de poder e autoritarismo por parte do senhor juiz Sérgio Moro e do Supremo Tribunal Federal.
Ha um eminente jurista que afirma que nem no período militar houve tanta afronta ao direito do cidadão, nem mesmo num tribunal militar! Pois bem, aqui faço uma pequena digressão; no período militar a justiça não era relativa, era circunstancial. Se, o indivíduo fosse julgado por questões politicas, era uma circunstância, agora se fosse, questões envolvendo grandes empresários era totalmente outra, no período militar questão de ordem era tão somente de ideologia, direita ou esquerda, capitalismo ou comunismo.
Atualmente, apesar de estamos caminhando a passos de tartaruga, vivemos um período democrático, direita ou esquerda, capitalismo ou comunismo, é decidido em eleições livres, bom ou ruim, o fato é que estamos começando a aprender a tomar decisões por meio de nossos representantes, ou através de nós mesmo através de manifestações públicas.
No período militar qualquer processo que envolvesse empresas e empresários, políticos e partidos o processo tramitava em sigilo. A imprensa estava proibida de divulgar qualquer coisa que não passasse pela censura prévia do governo militar, portanto, a sociedade era cega em relação ao direito. Todavia, o governo mudou, o processo mudou, o direito mudou, as pessoas mudaram, mas infelizmente, um certo jurista não mudou, vive com um direito do período militar, dos tribunais militares, dos despachos com militares, portanto, alguém precisa avisar ou aconselhar este jurista que os militares retornaram para suas casernas, e lá estão acatando a lei que é do Estado que hoje vigora no país, nada mais justo!
Atualmente a sociedade luta por liberdade de expressão, ou seja, quer saber o que está acontecendo para opinar, manifestar suas ideias a respeito de tudo que acontece no seu país. Entrementes, para que isso aconteça a publicidade dos fatos e sine quo noni. Revelar a pessoa e os fatos é fundamental, conhecer os documentos e suas fontes é fundamental, saber qual juiz é o responsável é fundamental, saber o quando a família do acusado foi beneficiada pela corrupção é fundamental, pois estes são comparsas no crime, ou seja, numa democracia quem deve decidir o que mostrar ou não, não são os advogados de defesa dos acusados, mas a sociedade, se, enquanto se, a sociedade pune os corruptos com publicidade também, é uma escolha da sociedade.
Os juristas que estão assinando essa carta, são advogados que seus honorários estão na casa dos milhões, eram muito amigo de militares, hoje são muito próximos de desembargadores, ministros, como foi o caso do senhor Thomaz Bastos ex ministro da justiça que foi o único que acreditava que seu cliente Roger Abdelmassih não fugiria, mas o réu fugiu, logo …! Acredito que o juiz senhor Sérgio Moro não esteja preocupado com quem ele julga ou com a publicidade, está apenas exercendo suas funções dentro de um regime que é uma democracia, nada mais, penso até que este juiz não seja um herói nacional é apenas um juiz exercendo suas funções como deve ser e nada mais.
infelizmente, nos dias atuais, os advogados não estão preocupados com direito, justiça, sociedade, moral, não, isso não faz parte do seu universo ou de sua índole, os advogados querem apenas, e tão somente, ganharem suas causas, seja seu cliente um estuprador, um assassino em série, seja um corrupto que tirou a merenda de milhares de crianças de escolas, tudo isso é insignificante, o importante é vencer, o importante é ser temido e não respeitado, respeito é um tema para perdedores.

iSem o qual não, sem conhecimentos dos fatos é impossível se manifestar.

http://www1.folha.uol.com.br/poder/2016/01/1730221-operacao-lava-jato-e-pior-que-a-ditadura-diz-advogado.shtml


sábado, 16 de janeiro de 2016

                                                                            (A)teísta.

O tema liberdade de expressão e liberdade de pensamento é algo que me motiva a ler páginas e páginas, seja em livros ou na internet.  O livro "Diálogos Sobre a Religião Natural”[1] do pensador David Hume é bem interessante, pois fica uma questão sobre o autor, ele era Agnóstico, Ateu ou Teísta?
Hume desenvolve um diálogo entre três personagens: Cleantes, Demea, Filo, Panfilo é o narrador. No livro todos os personagens são teístas. Fato este compreensivo, afinal, neste período Hume seria excomungado, perseguido e às vezes até fritado em óleo quente, por este fato também é que o livro só foi editado após sua morte, afinal Hume sentia sua batata assando só de pensar em publicar o livro em vida.
No geral é o seguinte; Cleantes tenta provar a existência de Deus por meio de argumentos práticos, argumentos empíricos, a posteriori, com fatos dados no mundo. Demea tenta provar a existência de Deus pela razão, com argumentos lógicos, nada empírico ou material, a priori. Quanto a Filo, este fica observando e acompanhando atentamente, às vezes intercede a favor de um ou outro.
O pensador desenvolve argumentos prós e contra sobre a existência de Deus, durante todo o diálogo são apresentados e desenvolvidos vários argumentos muito claros e com muita inteligência de ambos os debatedores, mas nenhum sai vencedor ou convencido, todavia, fica explícito que não provar a existência de Deus, garante que Deus não exista; e isto é muito plausível.
Entrementes pretendo passar para outro tópico que tem a ver com este tema acima; outro dia estava navegando na internet quando me deparei com um site de Ateus, a página principal do site é justificando o ateísmo e se defendendo das agressões recebidas por parte de religiões cristãs de vários nomes. Não cabe aqui ficar citando nome de determinadas religiões, pois o objetivo do texto não é julgar as partes.
A primeira linha do site dos Ateus começa assim: porque ser ateu? Após ler o texto e ler boa parte dos argumentos, passei a refletir o seguinte pensamento: por que alguém tem que ser Ateu ou Cristão, ou Budista ou Mulçumano ou qualquer uma das demais religiões que existem? Por que as pessoas não podem não ser Ateus ou não Cristãos ou não Budistas ou não Mulçumanos ou não ter uma religião das que existem?
A Primeira Cruzada foi em 1095, a inquisição da qual derivam todas as demais, foi em 1184, no ano de 1527 houve inquisição entre os protestantes, ou seja, todos contra todos! Se entre os teístas eles se matavam, imaginem o que faziam com os ateus. Com certeza, no período entre 1095 e 1527 o sujeito antes de admitir publicamente que era Ateu ele primeiramente chapava o melão, e depois dava o ar da sua Graça!
2014, estamos a 487 anos distante da inquisição dos protestantes, mas o preconceito continua, por que? Por que as pessoas não se respeitam, por que as pessoas não conseguem lidar com a diversidade de pensamentos, por que as pessoas precisam e sentem que devem fazer partes de determinados grupos, por que as escolhas individuais não podem ser aceitas, por que?
Um pensador alemão, odiado pelos cristãos e pelos judeus em um dos seus trabalhos, desvenda bem o fato, fato este infelizmente que poucos de nós brasileiros temos acesso, devido à falta de interesse em ler, de uma escola que não prepara aluno para ser um cidadão, mas sim um analfabeto funcional, junte a isto um sistema que nos aliena a ver a rede Globo, curtir Faustão e delirar na baixaria do BBB ou do Pânico.
Volto a este pensador, ele morreu louco, os Teístas falam a boca-miúda que foi um castigo divino, o fato é que seu pai, um pastor protestante, morreu de loucura também (castigo por ser protestante!), e seu irmão em tenra idade também sucumbiu, sabe-se lá o que esta criancinha fez para passar dessa pra melhor! Mas o fato é que, o que vale é se há verdade na pesquisa. E não há dúvida, o homem pensador acertou na mosca.
Nietzsche concluiu que, o homem quando torna parte de um determinado grupo ou já nasce dentro de um grupo, o homem nega a sua identidade para formar uma identidade direta com a do grupo (por favor, não confunda com a alienação definida por Karl Marx), essa mudança de identidade se dá lentamente, vem das promessas futuras, na crença que todos nós somos guiados ou orientados por um líder, geralmente, e os líderes não podem ser questionados pelos membros da base.
Um exemplo, a pessoa gosta de usar bermuda à noite em dias quentes, mas a orientação do grupo é sempre usar calça social, no começo, às vezes o sujeito até pensa em empinar carroça, mas depois auto se convence que o grupo está certo. Depois muda a leitura, ficando dentro dos limites aceitos pelo grupo, depois passa a frequentar apenas os amigos do grupo, gasta o dinheiro com a orientação do líder, o líder passa a saber o quanto a pessoa ganha, bem, no final você é o grupo, mas o grupo não é você, porque você sempre seguirá os propósitos ditados pelo ou pelos líderes grupos.
O leitor amigo poderia de supetão dizer, mas e daí, qual o problema de se identificar com um grupo, “caramba”!
O problema é que, em linhas gerais, antes de entrar para determinados grupos você não questiona o que é, quem são e por que este grupo tem exatamente este modo de ser, essa doutrina, ou essa política, geralmente as pessoas já nascem dentro de grupos, mas nunca se perguntam se gostariam de estar ali, ou seja, geralmente, o homem não descontrói a sua moral para buscar uma moral que seja dele próprio, ou qual é o grupo que se identifica com a sua moral, entrementes, qual a moral de cada homem pensada a partir de cada um, por si mesmo!
A maior parte do preconceito entre as pessoas, nem sempre é porque pensam diferentes. Há grupos que não permitem que os homens usem brincos, um belo dia aparece um elemento usando brincos, as pessoas do grupo criam barreiras contra essa pessoa, não propriamente porque ele usa brincos, mas, os grupos se negam a usar brinco, se privam de usar, diante desse fato ele também não pode, ou seja, a moral do grupo tem que prevalecer sobre ele, mesmo sabendo que não há problema em usar brinco, ou tatuagem, ou piercing ou ser um andarilho... O ódio das pessoas que vivem em grupos sectários está no fato de ver alguém que age por vontade própria e não conforme as ordens dos grupos.
Acredito que as pessoas deveriam viver em paz com as pessoas que lhe respeitam, que lhe ajudam, ou com as pessoas que não nos ajudem mas não nos atrapalhem. Afinal, a vida é curta. Dizem que há uma passagem na bíblia que diz que uma pessoa ganhou o paraíso porque ajudava os outros, mas nunca orou para Deus, enquanto que um que orava todos os dias foi conduzido às portas do inferno porque nunca havia ajudado ninguém. Deus pode até ser um grande mistério, mas essa parábola não tem mistério nenhum.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Um Olhar A Deriva

Capítulo V.

Um mistério
               
                Vera Lúcia sempre foi uma mulher diferente, quando menina era o oposto em relação às meninas de sua idade. Lia muito, muito atenta as conversas dos mais velhos, analisava sempre a opinião de cada pessoa que falava sobre política, comportamentos e costumes das pessoas, ficava encafifada com as opiniões e atitudes das pessoas, às vezes a pessoa dizia uma coisa, mas fazia exatamente o oposto. Aos 16 anos já tinha lido vários livros sobre política, economia, romances, debatia suas ideias com alguns garotos da escola, mas preferia os professores e professoras, praticamente lera de tudo um pouco, drogas, músicas, sexo e alguns livros de filosofia e psicologia.
                Vera não gostava de batom ou qualquer tipo de maquiagem, a muito esforço do pai usara lápis nos olhos, pois para o pai lembrava as egípcias, devido ao fato dos egípcios terem uma história muito interessante pra ela, usava o lápis nos olhos, mas só isto. Ela tinha no pai um grande amigo, para a época era muito raro ver pai e filha serem tão próximos. Os pais de Lúcia nasceram e foram criados na zona rural da cidade, todavia, antes de Lúcia nascer resolveram mudar para a cidade, para o Bairro da Gasosa na Rua Pau da Bandeira. O pai montara uma venda de produtos agrícolas, na esquina da rua Mata Cachorros com a rua Cacete Armado, a venda no início era bem modesta, mas o movimento das vendas indicava que prosperaria em um futuro muito próximo.
                A casa era bem confortável, quartos grandes, duas salas, banheiro dentro de casa, um jardim na frente da casa e a divisa do quintal era um córrego não muito estreito que corria em ziguezague. Entre o córrego e a casa havia uma moita de bambu enorme, todos gostavam da moita de bambu devido ou som que era produzido quando as correntes de ar passavam entre os bambus. A frente da casa era fechada por uma cerca de madeira, as tábuas muito bem talhadas e muito bem tratadas com selador e verniz, nas laterais era uma cerca de arame farpado de sete pernas, ao fundo era apenas o córrego. A moita de bambu formava uma parede de tão densa que, quem estava entre a moita e o córrego não conseguia ver a casa, quem estava na casa não conseguia ver se havia gente atrás da moita.
                O córrego dos Prazeres também era divisa para outra casa, casa esta muito grande e bonita, para chegar a casa partindo do córrego até a casa tinha que ir por uma trilha muito estreita, pois o mato era muito denso e com árvores altas, a distância era entorno de vinte metros, gastava o tempo de andar cem metros no limpo e era impossível andar na trilha sem fazer barulho. Nesta casa morava o senhor Thomás T. Urbano Fortes sua esposa a senhora Baudouine Bienvenue das Ventas, nascera em Malha de Pedras, na Bahia, mas era descendente da família dos Bienvenue da França. Thomás T. Urbano era descendente da família dos Thompson de Oklahoma, dos Estados Unidos, sua mãe nasceu em Aracoiaba no Pernambuco. Na casa eram três, o casal e um filho. Um mancebo.
                Lúcia acordou cedo, como fazia sempre nos dias de semana, o sol brilhava muito, mas algo escurecia ou fazia-a se sentir adentrar algum lugar desconhecido, sentia algo estranho dentro de si, um sentimento de solidão com abandono. Era um dia como tantos outros que tivera em sua vida, mas uma dúvida, algo a incomodava logo ao acordar, se vestiu, mas não para ir à escola, vestiu um vestido pouco usado de chita estampado com tulipas e bromélias, o vestido não tinha mangas e era largo e não passava dos joelhos, sempre usava com vestidos duas anáguas brancas, a primeira lisa a segunda trabalhada, as anáguas sempre eram de cor branco gelo, mas neste dia não as usou.
                O pai, senhor Pimpolho da Paz saia sempre mais cedo, neste dia sua mãe a senhora Clotildes Paciência da Paz seguiu com o marido para ajudá-lo, o último dia útil da semana era sempre o mais movimentado. Lúcia não tomou o rumo da escola, com seu vestido de chita, calçando uma rasteirinha seguiu rumo a moita de bambu. Contornou a moita, escolheu um lugar que parecia confortável e sentou na terra, apoiou as costas em um bambu, com os joelhos dobrados cruzou as pernas, levou as duas mãos por debaixo dos cabelos próximos as orelhas, curvou-se para baixou, fechou os olhos e mergulhou em pensamentos estranhos que lhe acordara.
Já havia lido sobre tais ideias, mas nunca refletira, nunca imaginou que uma leitura poderia lhe roubar um dia, um sentimento. Lúcia pensou por que pensava aquele pensamento, como ela podia pensar algo que estava pensando, quanto mais ela tentava retroceder, sempre percebia que algo estava na condição de observador daquilo que pensava. Pensou que, se a mente pode se distanciar do pensamento a mente é vazia, pois tudo que lhe vinha na mente era refletido como um espelho, um espelho reflete coisas que não estão no espelho, a mente seria um espelho sempre vazio que ao buscar lembranças na memória ou imagens e sons na realidade apenas os refletia. Se eu não tivesse memórias, não pudesse sentir as coisas me tocaram, não pudesse sentir o cheiro das coisas e me encontrasse num quarto escuro, eu não teria certeza de mim mesmo, eu seria como um espelho num lugar escuro!
Não assustou e nem abriu os olhos rapidamente, mas algo ou alguém lhe tocava levemente no ombro direito, percebera que era alguém, pois sentou se ao seu lado. Este que estava sentado ao seu lado segurou lhe a mão, não apertou nem a acariciou, apenas segurou de forma que transmitiu segurança, não imaginava quem poderia ser e por um momento também não queria, aquela paz, aquela segurança que um aperto de mão lhe trazia era tudo que precisava naquele momento.
Manteve os olhos fechados, afinal, por que deveria abrir os olhos rapidamente, por que não conhecer alguém sem poder lhe ver, pensava, se não podemos ver a verdade, talvez possamos senti-la. Se a pessoa que estiver usando algo que desaprovo, não serei condescendente com ele ou ela, afinal, quem garante que meus valores são certos ou meu mesmo. Podia perceber que as mãos não eram grandes, percebia um cheiro seco de madeira, talvez uma alfazema diferente, mais uma vez perguntou a si mesmo em pensamentos de olhos fechados: o que posso ver de olhos fechados quando sei que há coisas que os olhos abertos nunca me revelam?
A pessoa que estava ao seu lado entrelaçou seus dedos nos dedos de Lúcia e com a outra mão, muito levemente passou um dedo no ombro direito deslizando até o cotovelo e retrocedendo até o ombro.
_ O que é mais fascinante, um segredo ou um mistério? a pessoa lhe perguntou.
_ Ser um homem é manter o mistério de um segredo, ou revelar o mistério do segredo? perguntou Lúcia.
_ Ser homem é manter o mistério com seus segredos. Aqui neste momento, como posso saber quem eu sou se tu não me olhas! Como posso saber se sou bom ou ruim se seus olhos não me revelam, acredito que as pessoas nos identificam através do olhar, se tu me olhas, tenho ideias a meu respeito, afinal são seus olhos que há de me dizer o que sou para você.
- Toda moral será castigada sob o sol que alumia o homem. Um sussurro com os lábios muito próximos do ouvido de Lúcia fora assoprado para ela.
Lúcia de olhos fechados via um mar enorme surgindo a sua frente, as águas não lhe tocaram os pés, pois estava em cima de um rochedo, as ondas calmamente foram surgindo, longas uma das outras, mansas, sentia seu corpo se balançado pela maresia, pouco a pouco as ondas foram aumentando, crescendo e com intervalos curtos, o ritmo era perfeito ia aumentando aos poucos.
Primeiro foram as gotas que alcançaram os seus pés, o gosto do sal vinha na brisa, depois um arrepio da água gelada que alcançara até os calcanhares, o medo do mar desconhecido que  começava a lhe tomar surgiu, mas assim como surgiu foi com o regresso da onda e não voltou. O movimento das ondas lhe fazia sentir um balanço harmônico, a água fria o corpo quente lhe tomava os sentidos. O mar não parava de crescer, as ondas já lhe tomava até a cintura, com os lábios molhados pelas águas deste imenso mar imenso Lúcia deitou-se, manteve seus olhos fechados, pois tinha a certeza que não teria outro  mar a lhe aparecer como naquela manhã. Lúcia sentiu que sua alma mergulhou no mar, seu corpo já não sentia o frio da água, o calor do corpo e antes que sua alma voltasse a flor da água do mar sentiu que o tempo parou, as águas também, um princípio de calmaria que foi tomada por uma grande luz que surgiu no alto e explodiu nas águas do mar. As pequenas ondas que ainda apareciam ao longe recuaram mais e mais, assim como o mar aos poucos foi se desfazendo, pouco a pouco até não mais haver um mar apenas aquele que lhe sussurrava ao ouvido.
Todo o corpo de Lúcia estava tenso, músculos, nervos e mente. Aquele que estivera ao seu lado já ali não estava, mantendo os olhos fechados sentiu que mordera em alguma coisa, sentia um gosto estranho na boca, algo macio e firme, não era grande, mas parecia curvo. Lúcia não tocou nem curiosidade teve, desvencilhou sem tocar os dedos e continuou deitada ao lado da moita de bambu, ouvindo o som do vento que cortava os bambus e dormiu com as lembranças daquele mistério.


  

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um Olhar a Deriva


Capítulo IV

Corpos em Fúria

Delícia quando mudou-se para a rua do Brejo Raso era solteira e morava sozinha, seus pais moravam no nordeste e a filha mudara para estudar, Delícia convencera o pai a morar sozinha, mas teria uma ajudante, L’mour, filha de Dona Ricotinha, que mora no Bairro dos Arranca-tocos, na Rua do Pau-furado, nº100. L’mour era uma adolescente esperta no lavar, cozinhar, passar, calada quando não chamada mas sempre tinha assunto para horas a fio se alguém lhe puxasse a língua., Menina, alta, esbelta, pele muito branca e de cabelo muito cheio, avolumado, seu cabelo era seu maior pesadelo, não domava-o, pois ela era descendente de negros, pele muito clara, mas os cabelos eram rebeldes, o povo adorava seu cabelo, mas ela o odiava.
Delícia desceu a Rua Brejo Alegre em direção a venda do senhor Maldonado para fazer compras, naquele dia L’mour estava muito atarefada, lavando a roupa de cama, mesa e banho, no dia seguinte passaria todas. Delícia não percebera, mas comprou tanto que levar tudo sozinha era impossível, o funcionário do senhor Maldonado, Faísca, havia saído para fazer um entrega, enquanto Delícia pensativa olhava para as compras, chegou Fumaça, filho do vizinho da venda, avisando que Faísca caíra numa ribanceira com a bicicleta cargueira e demoraria, o pneu furou, o guidão entortou, o retorno do funcionário levaria um bom tempo.
Jacinto Lamas estava na venda, não estava bebendo nem comprando, entrara na venda há poucos minutos, se apresentou a Delícia com um gesto de respeito seguido de desculpas por aproximar-se dela, em seguida ofereceu para carregar as compras. Delícia olhou aquele homem muito forte, discreto no falar e de olhos que lhe incomodava, não ter percebido a presença daquele homem na venda lhe incomodava, uma mistura de indignação e frustação remoía parte do corpo abaixo do estômago. Seu corpo fora explorado pelos olhos daquele que ela não o percebera?
Resoluto, tomou todas as compras da senhora em seus braços e disse:
- Senhora, onde posso depositar seus pertences?
Delícia andou em direção ao vendeiro, pagou as compras e lhe disse que tivesse um bom dia, antes de retornar àquele que estava de posse de suas compras, despediu do proprietário da venda.
- Por favor, me acompanhe, o caminho não é longo, mas é íngreme e a rua não é plana, tome cuidado, não quero que o senhor se machuque por mim.
                Eles não seguiram em fila indiana, não muito próximo, o suficiente para um perceber o outro, seguiram calados, seus olhares eram fixos à frente, nada a esquerda ou a direita lhes chamavam a atenção, o ritmo das passadas era simplesmente simétrico, quando a perna direita dava um passo, a direita do outro também, direita direita, esquerda esquerda.
A cadência das pernas não era a mesma da respiração, curta e rápida de um, longa e lenta do outro, ora um era longo, ora era o outro. Subiram cinco quadras, porém, antes de terminar a quinta quadra, Delícia adiantou-se, passou à frente do seu ajudante. Esticou o braço direito e com o dedo indicador lhe mostrou qual a casa que ele deveria se dirigir. Lamas esperou o suficiente para a senhora abrir a porta, feito isto adentrou a casa, depositou as compras sobre a mesa da cozinha, a porta da entrada já estava fechada. L’mour estava lavando roupas no quintal ao fundo da casa.
Quando Jacinto Lamas virou, o inusitado aconteceu.
                Delícia levou-o para o quarto, e lá ficaram por quatro dias e quatro noites sem sair. L’mour percebera que já era hora de começar o almoço, entrou na cozinha por uma porta que liga com o quintal e viu as compras, por um momento ficou confusa, a patroa não lhe chamara ao chegar em casa com as compras, não lhe pedira para começar a preparar o almoço e não tinha ao alcance de suas vistas. Uma touca de cor vermelha na cabeça, vestido azul até os tornozelos, com um babado trabalhado a mão, as mangas eram longas de cor ametista, o vestido era justo o suficiente para delinear as curvas do corpo, um decote que esbanjava a saliência dos seios, dois pequenos relevos empurravam o tecido para frente.
                Após alguns segundos estática na cozinha, L’mour ouviu um baralho que vinha do quarto da patroa,  às vezes era um barulho da mola do colchão. Pode ser mola quebrada, pensou L’mour, a empregada respirava devagar e silenciosamente, seus ouvidos eram todos do quarto. Percebeu em pouco tempo que o pé da cama batia, lembrara que a cama precisou de um calço, pois tinha uma perna descompassada com as outras três, às vezes o barulho da mola era único, ora era acompanhado pelo toque-toque do pé-manco da cama; ora era só o toque-toque da cama. L’mour agora percebia outro som, algo que se batia, ritmados ou não este som sempre era acompanhado pelo toque-toque da cama ou o barulho da mola quebrada. Mas o que se chocava?
                “Só se é curioso na proporção de quanto se é instruído”. L’mour tinha lá seus conhecimentos. Pe-ante-pé  a curiosidade moveu-se em direção a fonte dos barulhos, muito precavida,  L’mour conhecia todas as frestas da casa, afinal pensava ela, a gente nunca sabe do amanhã, é melhor nos prevenir. Ela não parou perto da porta do quarto, passou direto e entrou no quarto ao lado, tirou as chinelas, pegou uma toalha, forrou uma escrivaninha que estava junto a parede que fazia divisa com o quarto da patroa. Subiu primeiro em uma cadeira, depois alcançou a escrivaninha com facilidade, tirou da parede imagem de Nossa Senhora dos Prazeres, na pontinha dos pés espiou o outro quarto.
                L’mour contraiu os músculos das pernas, esfregou as mãos em seu ventre e mordeu o lábio inferior, sangrou, mas pouco, após algum tempo desceu da escrivaninha, passou pela cadeira vagarosamente e sentou-se na cama. A arrumadeira relaxara o corpo, limpara o sangue da boca, não esqueceu de voltar o quadro da santa para o lugar devido antes de sair do quarto. Seguiu direto para a cozinha e começou a preparar o almoço, triplicou na quantia.
                Enquanto cozinhava o som do nheco-nheco, o toque-toque e as batidas dos corpos foram se tornando engraçados para L’mour, o som junto com a sua imaginação lhe divertia a beça. A cozinheira montara com a harmonia que vinha do quarto e uma letra de sua autoria, acabou criando uma música. Por volta das 14:00h Delícia chamou a empregada pelo nome e esta respondeu lhe da cozinha:
                - Senhora!
                - Traga para nós o almoço, eu e Lamas vamos almoçar aqui na cama.
                L’mour improvisou uma padiola com duas rodas presas a um eixo equidistante ao centro do tabuleiro preso ao eixo. Levou de tudo um pouco que tinha pronto, arroz, feijão, carne de porco, quiabo, tomate verdolengo, abobrinha batidinha com ovos, duas pamonhas salgadas com linguiça, batatinha frita na banha de porco, uma jarra de suco de jaca. Quando L‘mour chegou no corredor do quarto viu várias roupas de cama jogada no piso, ela desviou-se das roupas, aproximou da porta do quarto que estava aberta e perguntou:
                - Posso entrar Dona delícia?
                - Claro L’mour! Adentre meu bem!
                A serviçal ficou estarrecida com o que viu, mas disfarçou perfeitamente, Jacinto e Delícia estavam nus! Lamas estava com as costa na cama, Delícia descansava uma perna entre as pernas de Jacinto, uma mão lhe afagava o peito, a outra deslizava pela barriga até ficar por debaixo da perna que descansava entre as pernas de Lamas. L’mour descarregou o repasto da padiola improvisada em cima de uma mesinha que estava ao pé da cama.
                - Empurre a mesinha para perto da cama L’mour. Disse a patroa derretendo em suor.
                A prestativa menina assim fez e ao sair do quarto ouviu a recomendação da patroa:
                - Quando for 17::00h traga um lanche para nós e as 20:00h você pode servir o jantar e ir deitar e não esqueça de pegar as roupas de cama sujas e lavar no mesmo dia e nos traga outras limpas todas as manhãs no horário do café.
                _ Sim senhora.
                Os dias seguiram conforme fora combinado. No começo era engraçado para L’mour, sempre aquele som toque-toque, nheco-nheco da mola quebrada e as batidas das pernas. O café da manhã, o almoço e jantar seguiam nos horários, não havia gemidos, mas à noite o som começava a incomodar a vizinhança, a janela do quarto de Delícia ficava junto a calçada e eles não fecham a janela permanecendo noite e dia aberta, assim sendo, o som daquela orquestra invadia todos os espaços possíveis. No final do segundo dia a empregada começou a se sentir incomodada com a situação. Ela sabia que no sábado cedo iria para casa, pensou que aquilo terminaria logo, mas não! No terceiro dia começou a se irritar, a vizinhança já olhava para a casa acintosamente, as pessoas já estavam espalhando um babado a respeito da situação, até que, no quarto dia aconteceu algo digamos “esbaforido” com a vizinhança.
O relógio da parede do quarto de L’mour marcava 11:30h da noite e a folhinha com uma imagem de paisagem informa que ainda era sexta-feira. A empregada e a vizinhança foram acordadas por um bramido estrídulo, forte longo e grosso, seguido por um uivo agudo que durou quase um minuto, na sequência ao urro e ao gemido veio um grito:
                - Essa esbórnia tem que acabar! Senhor, eu não aguento mais!
                L’mour surtara, tivera um ataque psicótico, descabelada, com olheiras fundas e com lábios trémulos adentrou no quarto da patroa e lhe chamou de rampeira, quenga no cio. Ninguém sabe por que, mas o pudor voltou a casa, naquela noite Jacinto Lamas levou L’mour até sua casa, adiantou lhe um mês de salário e lhe deu férias, não despediram, mas antes de Lamas dar as costas a moça ouviu:

                - Senhor, tudo tem limites, os senhores ultrapassaram os meus limites, mas não os julgo, beijo é um caminho sem fim.

sábado, 17 de maio de 2014

Um Olhar a Deriva

Capítulo III
Um Mistério

Jacinto Lamas, filho de escoceses, não conheceu bem a suas paragens de origem, de lá mudou-se ainda em tenra idade, mas o pouco que lá vivera assimilou algumas coisas da terra natal. Jacinto não dominava o português, de temperamento bonachão, muito branco, olhos azuis, sujeito alto e muito forte, não tinha o olhar desconfiado ou de olhar as espreitas, não. Homem discreto e respeitoso. Quando aqui chegou em 1941 foi morar no Bairro Dos Aloprados na Rua Dos Perdões, nº24, morou neste bairro por um bom tempo. Aos 25 anos se mudou para o bairro Da Salvação na Rua Da Degola, nº17 bem no fim da rua, rua de terra batida e sem calçada. A vizinha morava apenas com um filho de 8 anos de idade, conhecida por Dª Lúcia, seu filho era muito calado, andava bem vestido e estudava em escola boa, sua mãe sempre o deixava a meia quadra da escola, era um acordo de senhoras para o moleque poder estudar naquele colégio. Um dia um fato curioso aconteceu.
Num belo dia, Passional, filho de Dª Lúcia brigou na escola, moleque calado mas bom na troca de sopapos, esbordoou o filho de Dª Vulvelina, esposa do delegado Salpicão das Ventas Fortes.  Dª Lúcia procurou Jacinto Lamas e pediu-lhe ajuda para ajudar no imbróglio na escola. Jacinto Lamas vendo o desespero de DªLúcia não titubeou, foi às pressas até a escola conversar com o delegado, pois este já esperava pelo responsável do garoto que esbordoara seu filhinho Sustevaldo.
Lamas desceu bairro abaixo em direção à escola, quanto mais rápido Lamas descia, mais ideias à respeito de Passional vinha-lhe a cabeça, descera por uma viela chamada Cainanhum, virou na rua das Espinhelas, percorreu uns duzentos metros,  chegou na praça das Virgens de onde era possível avistar a escola que ficava na Rua Cavalo Queimado. A escola tinha dois andares, janelas azul arara, portais brancos com portas verde bandeira. Havia 30 salas, vinte de aulas, bibliotecas, auditório, sala de reuniões etc. Cada sala de aula tinha um nome, as salas do primário era dos coronéis do cacau, as demais variavam entre Ferreiras, Parreiras. Laranjeiras, a sala do Goiaba ficava ao lado da sala da Banana. A diretora era a senhora Martinha, baixa e de pernas curtas e grossas, andava sempre com uma régua em punho, media as travessuras dos alunos na base da palmatória, a criança decidia quantas reguadas levaria em caso de travessuras, deste que não fosse menos que 11.
Lamas entrou na escola um tanto esbaforido, mas resoluto à defender Passional. Ao adentrar a sala da diretora o moleque se encontrava erguido pelos colarinhos pelo delegado Salpicão das Ventas Fortes. O delegado era um homem muito forte, peito largo, pernas longas e fortes, as patelas eram muito avançadas, pescoço que lembrava gargalo de garrafa, cabeça pontiaguda devido a acidente; quando neném caíra do colo da mãe é o pai pisara na cabeça, comprimindo as orelhas, seu pai pesava muito e era surdo do lado esquerdo, a mãe, senhora Socorro do Perpétuo dos Santos. Gritara mais do que o suficiente, mas senhor Mamarracho Socorro dos Santos, não retrocedeu aos berros de Socorro do Perpétuo,  transpôs o empecilho que encontrava debaixo de seus pés, apoiou bem o pé, equilibrou-se e saiu da frente de Socorro.
                Salpicão das Ventas Fortes tinha os braços que não passavam da cintura, mas tinha força suficiente para segurar um touro. Jacinto Lamas olhou para o delegado, olhou para Passional e retornou o olhar para o delegado, quando os olhares se cruzaram, Lamas olhou para baixo, manteve no assolhado de madeira o olhar, levou a mão ao queixo, desviou um pouco a trajetória da mão para o lado direito e seguiu até a testa, com o olhar no piso de madeira jatobá, manteve a mão na testa, deslizou o polegar até a sobrancelha da esquerda e pressionou com o dedo médio a sobrancelha da direita, deslizou estes dedos até o centro e os manteve ali como se estivesse massageando um bindi; olhou para senhora Martinha e como se estivesse convidando a seguir seu olhar, olhou para Passional e para o delegado, ancorou o olhar no piso desbotado por tanto surrado pelos meninos.
Jacinto Lamas deslizou a mão da testa ate a nunca, pressionando a nuca, lançou um olhar para o teto pouco alumiado.
                Salpicão das Ventas fortes já não pressionava o colarinho do filho de Dª Lúcia, sentia um gosto estranho na boca, lhe faltava saliva, mas não era  água que buscava, de olhar vibrante tornara agora um olhar a deriva, resistiu que seu olhar de soslaio não cruzasse com da senhora Martinha, já não tinha forças para agarrar o moleque, mas não encontrava meios para tirar as mãos de um menino esquecido, na sala!
                Os olhares dos adultos naquela sala perseguiam uns aos outros no piso surrado, o silêncio os ligava, as janelas estavam abertas, uma poltrona estava esquecida, uma Remignton Rand de muito usada tinha algumas teclas sem letras, outras desbotadas, mas aquelas que não são do nosso alfabeto se encontravam perfeitas. Toda a mobília era em bálsamo, as canetas eram modelos anos 30. Há momentos que não há cadeiras perfeitas nem canetas que escrevem perfeitamente, mas o silêncio, este som que pode nos acompanhar em qualquer momento perfeitamente, às vezes, seu tempo não é perfeito devido as nossas imperfeições.
                - Posso ir pra sala? perguntou Passional.
                - Falta apenas quinze minutos para terminar a aula Passional, você pode voltar com o senhor Jacinto, se ele concordar meu filho.
                - Acredito que seria melhor para ele, senhora Martinha, e também porque sua mãe está preocupada como os acontecimentos chegaram até ela. Agradeço pela atitude da senhora.
                Despedidas não houveram entre aqueles que se encontravam na diretoria, Passional saiu primeiro com sua mochila improvisada, pois era feita de um saco de linho, a diretora informou ao delegado que buscaria seu filho,  este quando chegou na diretoria encontrou o pai sozinho, Sustevalvo estava com um lado do rosto avermelhado, a camisa rasgada nas costas devido a queda, Passional  esfregou-o no cimentado grosso. Susu, como era chamado pela mãe, não parava de passar a língua em um dente que se mostrava diferente em relação aos demais. Salpicão das Ventas Fortes num ímpeto abraçou o filho, passou lhe as mãos na testa, no cabelo, abraçou o filho e sorriu discretamente, sem reprimi-lo. O filho apoiou as duas mãos nos ombros do pai que havia agachado, olhou nos olhos do pai e sorriu. Incrivelmente rápido, o delegado arrancou o dente abalado com a mão, o susto foi tão que não houve dor, o filho do delegado apenas manteve os olhos no pai enquanto este jogava o dente do filho pela janela e falou:
                - Mantenha a boquinha longe dos ouvidos de sua mamãe, ou seu pai lhe arranca um rim.
                Sustevaldo de nada entendeu o que ocorrera entre ele e o pai, o sangue escorreu da boca, mas não chegou ao chão, gotejava no sapato, não foram mais que três gotas, pois o pai já levou o lenço à boca do guri. O delegado segurou firme o braço do filho e saiu à francesa.

Jacinto Lamas tinha 8 anos quando foi morar no Bairro Dos Aloprados na Rua Dos Perdões, em 1975 mudou-se para a Rua Brejo Raso no Bairro dos Aflitos para nunca mais de lá sair. A mudança foi algo fantástico, houve até um princípio de comoção, depois a comoção perdeu espaço para a indignação e em seguida sobrou apenas uma coisa que as pessoas diziam: esquisitice da juventude.

sábado, 10 de maio de 2014

Um Olhar À Deriva.

Capítulo II

O Entrevero

Amoroso Noites e Dias, negro alto, muito forte e sorridente para as mulheres, sempre de bom humor, morava no bairro das Batatinhas, perto, muito perto do bairro Dos Aflitos. Morava num pardieiro na Rua Dos Cachorros Loucos, uma moradia de dois quartos, a fossa ficava no fim do terreno, se lavava todos os dias com caneca, na frente de seu pardieiro havia um gramado, com vasos de hortênsia e beijos brancos, as mulheres gostam de flores e estas flores se mantinham na mente de Amoroso Noites e Dias, porque as mulheres gostavam de recebê-las.
Noites e dias Amoroso trabalhava, homem muito calmo quando com uma peixeira na cintura, muito alegre quanto tomava umas cachaças, não era valentão, mas não fugia-da-raia, se brigou, brigou pouco, dizem que foi uma vez, foi o bastante, não se tem notícias do seu agressor, uns dizem que foi com o Rego Penteado, mas Rego Penteado foi embora e ninguém sabe se foi pra cima ou pra baixo. Zé Prego deu uma versão, mas o povo não gostava dessas notícias no bairro das Batatinhas, a espelunca do boteco de Zé Prego ficava no encontro das ruas, Dos Porretes Armados com Rua Dos Beiços Amassados, foi pela Rua Dos Beiços Amassados que Jabutão esquivou-se pela madrugada após o entrevero que tivera com Amoroso Dias e Noites.
Zé prego era o dono de um bar de nome Bar do-Pé-Inchado, o balcão era em forma de L, a parte menor virada para a frente da rua, a parte maior fazia divisa com a parte maior do bar. Bem ao fundo do bar ficavam as mesas para o carteado, no encontro das paredes do lado direito bem no fundo, atrás da mesa do carteado ficava a mesa do jogo do bicho. Contando com a mesa do carteado e do jogo do bicho haviam mais sete mesas. Cachaça de várias marcas, conhaque apenas de duas whisky de marca desconhecida, alguns pratos de tira gosto, peixe, ovo, quibe, quibe com ovo, , linguiça, pé-de-porco, asa de frango. Os clientes gastavam seu dinheiro e tempo no bar à noite, alguns pinguços inveterados passavam a tarde também.
Sexta-feira o bar estava lotado, carteado, mesas cheias muito conversa e falação alta. Jabutão era um sujeito de paz, mas quando bebia, às vezes, estranhava e se metia a besta a fazer gracinhas com a pessoa que achava ser desconhecido. Naquela noite, Rego Penteado mamou o suficiente para chapar o melão e achar que já estava no ponto pra fazer das suas. Amoroso Noites e Dias chegou ao bar por volta das 11:25 da noite,  com ele uma mulher, eles foram para o balcão, apoiou um cotovelo no balcão e com o braço direito enlaçou a cintura da cândida mulher que ele trouxera. Era uma mulher muito simpática, esbelta, pele bronzeada, de pernas bem grossas do joelho acima, boca grande e lábios carnudos, seios fartos, olhos cor de mel, um vestido colado ao corpo de cor amarelo com listras verticais de cor pink e verde, alternadas, o sapato tinha um salto muito alto, perto do decote do vestido havia um broche de um arqueiro em um metal de cor ouro envelhecido.
Rego Penteado ao ver Amoroso dirigiu-se até ele com os passos a ziguezaguear, suando pinga levou a mão até a cintura de Amoroso e juntou a ele, abraçado a cintura de Amoroso e com uma perna por detrás do amigo falou num tom que muitos ali podiam ouvir:
_Hoje você vai tomar atrás do saco!
Amoroso Noites e Dias virou para ficar de frente para Rego Penteado, enquanto Amoroso fica de frente para Rego Penteado, ouviu do colega de bar novamente:
_Você gosta de tomar detrás do saco, então vai tomar hoje e é comigo.
A donzela que acompanhava Amoroso não gostou da brincadeira, achou até ofensivo, uma afronta, mas não sabia que se tratava de uma cachaça de nome Atrás do Saco. Pegou Rego Penteado pela camisa e puxou-o com força, devido o fato de Penteado estar já mamado de pinga este deixou o corpo ir direto à moça, a donzela de nome Esmeralda Estilingue não suportou o peso do corpo que puxara, Esmeralda e Rego foram direto ao chão, enquanto Esmeralda Estilingue ficou inerte de costa no chão com os joelhos dobrados, Rego Penteado ficou entre as pernas da moça.
Um burburinho assolou o bar, depois vieram os murmurinhos para depois uma sonora gargalhada quando Penteado chamou a companheira de Amoroso de vampira desdentada, Esmeralda deu uma mordida no peito de Penteado. Ela não tinha os quatro dentes da frente, os dois incisivos frontal e os dois incisivos lateral, na arcada dentaria superior, os dentes mais avançados eram os caninos.
Amoroso Noites e Dias não suportou a cena, a ofensa e as gargalhadas, pegou Rego Penteado pelo fundo das calças e esbofeteou o colega, foram vários safanões no pé d’ouvido, de tanto apanhar Penteado não parava em pé, a labirintite lhe tirou o equilíbrio, por fim, Amoroso levou Rego para fora do bar e lhe deu um último pontapé nos fundilhos. Rego Penteado desceu a Rua dos Beiços Amassados e nunca mais foi visto.

Esmeralda Estilingue  levantando um tanto quanto sem graça, infelizmente ao cair o vestido passou por uma ferpa e rasgou, deixando o prolongamento da perna esquerda exposta, devido à peça intima que ficava debaixo do vestido ser curta, toda a anca do lado esquerdo estava a mostra, encabulada sentou-se numa cadeira que estava próxima, e ali permaneceu sentada até Amoroso Dias e Noites lhe providenciar um vestido solícito a uma dama que acompanhava um frequentador do bar. Esmeralda e Amoroso tomaram uns goles de cachaça Chora no Pau,cachaça boa e muito apreciada por todos.  Naquela noite o nome da cachaça não foi pronunciado, apenas servida. Às 2:00 da manhã Amoroso pegou uma Chora no Pau e Estilingue e saíram do bar com destino ao seu pardieiro. 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Um Olhar a Deriva.

Capítulo I

Uma Dúvida.

O dia estava muito úmido, pouco sol, às vezes um facho de luz sim, às vezes não, mais para não e menos para sim, as nuvens eram muitas e de cor pálida, o céu parecia que encolhera e abraçava a cidade, todas as nuvens eram muito densas e pesadas, o número de nuvens que estacionavam sobre a cidade era maior que o número de nuvens que zarpavam.
A rua estava escorregadia, rua das antigas, pavimentada com pedras-preta, esta já fora um dia uma rua quase perfeita, as pedras se encaixavam em detalhes calculados até nos milímetros, uma ladeira íngreme, a calçada feita em pedra-rosa, calçada estreita.
A Rua Brejo Raso fica no Bairro dos Aflitos, bairro calmo, iluminação pobre, ficava a um tiro de arco da Praça Filhos de Zeus, com mais dois tiros de pedras fica a capela Coração de Jesus no centro da cidade. A rua hoje não é mais quase perfeita, algumas pedras elevaram, outras se afastaram, ali abaixaram e lá giraram. Às vezes o cavalo tropeça, o coche balança, o cocheiro irrita, o chicote estala, o passageiro calcula o quanto falta para chegar ao destino.
Neste dia, 6 de junho de 69 nasceu Oscar Alho das Lamas, na Rua Brejo Raso numa casa de paredes de cor areia, telha de barro, piso de madeira, os quartos não eram muitos, mas não menos de três, a sala de visita não tinha fotografias, mas quadros de afrescos eram três, Diotima, Aspásia a cortesã e Frigga todas em tamanho real e um guache de Afrânio Pessoa Castelo Branco perto da porta que da passagem à sala de jantar.
Oscar Alho estava no regaço da mãe, ela estava de braços nus, a pele arrepiava devida uma corrente de ar gélido que rompia pelas frestas de uma janela fechada com desleixo. O nascimento de um ser que representa esperança e inocência pode ser visto como um fruto de malícia ou pecado?
Delícia das Costas Lamas, a progenitora, deixou os olhos vagarem pelo corpo do rebento, um tanto quanto inerte, bracinhos roliços e curtos, um peito alto, todavia estreito, pernas longas e fortes, pés enormes, dedos cumpridos, o rosto não é comprido mas também não é de todo arredondado, olhos negros, nariz não pontiagudo, lábios carnudos e largos, as mãos eram tão grandes quantos os pés, a criança era perfeita, bonita - as mães sempre acham suas crias lindas - a pele não era branquinha branquinha, não, uma pele cor bege claro, suave, parecia pele de pêssego, sedosa.
Não houve choro, lágrimas ou soluços, apenas engolia algo, sem tirar os olhos de Oscar Alho disse em voz baixa, quase sussurrando aos ouvidos daquele serzinho que tinha nos braços:
- Deus é pai, não é padrasto, tenho Deus como testemunha e tenho a sua luz que me alumia toda a minha paz.

A tez de Delícia era branca, olhos pequenos e verdes, lábios finos, boca miúda, dentes sempre brancos como uma mandioca descascada, braços longos não muito fortes, pernas roliças que combinavam com suas ancas firmes, cabelos longo e muito preto, pescoço longo. O olhar de Delícia a diferenciava das demais mulheres da cidade, seu olhar era assim meio esguelhado, era sempre altiva ao caminhar, cabeça ereta, mas os olhos fixos no caminho, atenta a tudo à sua volta, as mulheres percebiam Delícia a tudo olhar, mas os olhares nunca se encontravam, assim era com os homens, olha a todos, mas nem todos interceptam seu olhar, apenas aqueles ou aquele que ela permitia.