sexta-feira, 23 de maio de 2014

Um Olhar a Deriva


Capítulo IV

Corpos em Fúria

Delícia quando mudou-se para a rua do Brejo Raso era solteira e morava sozinha, seus pais moravam no nordeste e a filha mudara para estudar, Delícia convencera o pai a morar sozinha, mas teria uma ajudante, L’mour, filha de Dona Ricotinha, que mora no Bairro dos Arranca-tocos, na Rua do Pau-furado, nº100. L’mour era uma adolescente esperta no lavar, cozinhar, passar, calada quando não chamada mas sempre tinha assunto para horas a fio se alguém lhe puxasse a língua., Menina, alta, esbelta, pele muito branca e de cabelo muito cheio, avolumado, seu cabelo era seu maior pesadelo, não domava-o, pois ela era descendente de negros, pele muito clara, mas os cabelos eram rebeldes, o povo adorava seu cabelo, mas ela o odiava.
Delícia desceu a Rua Brejo Alegre em direção a venda do senhor Maldonado para fazer compras, naquele dia L’mour estava muito atarefada, lavando a roupa de cama, mesa e banho, no dia seguinte passaria todas. Delícia não percebera, mas comprou tanto que levar tudo sozinha era impossível, o funcionário do senhor Maldonado, Faísca, havia saído para fazer um entrega, enquanto Delícia pensativa olhava para as compras, chegou Fumaça, filho do vizinho da venda, avisando que Faísca caíra numa ribanceira com a bicicleta cargueira e demoraria, o pneu furou, o guidão entortou, o retorno do funcionário levaria um bom tempo.
Jacinto Lamas estava na venda, não estava bebendo nem comprando, entrara na venda há poucos minutos, se apresentou a Delícia com um gesto de respeito seguido de desculpas por aproximar-se dela, em seguida ofereceu para carregar as compras. Delícia olhou aquele homem muito forte, discreto no falar e de olhos que lhe incomodava, não ter percebido a presença daquele homem na venda lhe incomodava, uma mistura de indignação e frustação remoía parte do corpo abaixo do estômago. Seu corpo fora explorado pelos olhos daquele que ela não o percebera?
Resoluto, tomou todas as compras da senhora em seus braços e disse:
- Senhora, onde posso depositar seus pertences?
Delícia andou em direção ao vendeiro, pagou as compras e lhe disse que tivesse um bom dia, antes de retornar àquele que estava de posse de suas compras, despediu do proprietário da venda.
- Por favor, me acompanhe, o caminho não é longo, mas é íngreme e a rua não é plana, tome cuidado, não quero que o senhor se machuque por mim.
                Eles não seguiram em fila indiana, não muito próximo, o suficiente para um perceber o outro, seguiram calados, seus olhares eram fixos à frente, nada a esquerda ou a direita lhes chamavam a atenção, o ritmo das passadas era simplesmente simétrico, quando a perna direita dava um passo, a direita do outro também, direita direita, esquerda esquerda.
A cadência das pernas não era a mesma da respiração, curta e rápida de um, longa e lenta do outro, ora um era longo, ora era o outro. Subiram cinco quadras, porém, antes de terminar a quinta quadra, Delícia adiantou-se, passou à frente do seu ajudante. Esticou o braço direito e com o dedo indicador lhe mostrou qual a casa que ele deveria se dirigir. Lamas esperou o suficiente para a senhora abrir a porta, feito isto adentrou a casa, depositou as compras sobre a mesa da cozinha, a porta da entrada já estava fechada. L’mour estava lavando roupas no quintal ao fundo da casa.
Quando Jacinto Lamas virou, o inusitado aconteceu.
                Delícia levou-o para o quarto, e lá ficaram por quatro dias e quatro noites sem sair. L’mour percebera que já era hora de começar o almoço, entrou na cozinha por uma porta que liga com o quintal e viu as compras, por um momento ficou confusa, a patroa não lhe chamara ao chegar em casa com as compras, não lhe pedira para começar a preparar o almoço e não tinha ao alcance de suas vistas. Uma touca de cor vermelha na cabeça, vestido azul até os tornozelos, com um babado trabalhado a mão, as mangas eram longas de cor ametista, o vestido era justo o suficiente para delinear as curvas do corpo, um decote que esbanjava a saliência dos seios, dois pequenos relevos empurravam o tecido para frente.
                Após alguns segundos estática na cozinha, L’mour ouviu um baralho que vinha do quarto da patroa,  às vezes era um barulho da mola do colchão. Pode ser mola quebrada, pensou L’mour, a empregada respirava devagar e silenciosamente, seus ouvidos eram todos do quarto. Percebeu em pouco tempo que o pé da cama batia, lembrara que a cama precisou de um calço, pois tinha uma perna descompassada com as outras três, às vezes o barulho da mola era único, ora era acompanhado pelo toque-toque do pé-manco da cama; ora era só o toque-toque da cama. L’mour agora percebia outro som, algo que se batia, ritmados ou não este som sempre era acompanhado pelo toque-toque da cama ou o barulho da mola quebrada. Mas o que se chocava?
                “Só se é curioso na proporção de quanto se é instruído”. L’mour tinha lá seus conhecimentos. Pe-ante-pé  a curiosidade moveu-se em direção a fonte dos barulhos, muito precavida,  L’mour conhecia todas as frestas da casa, afinal pensava ela, a gente nunca sabe do amanhã, é melhor nos prevenir. Ela não parou perto da porta do quarto, passou direto e entrou no quarto ao lado, tirou as chinelas, pegou uma toalha, forrou uma escrivaninha que estava junto a parede que fazia divisa com o quarto da patroa. Subiu primeiro em uma cadeira, depois alcançou a escrivaninha com facilidade, tirou da parede imagem de Nossa Senhora dos Prazeres, na pontinha dos pés espiou o outro quarto.
                L’mour contraiu os músculos das pernas, esfregou as mãos em seu ventre e mordeu o lábio inferior, sangrou, mas pouco, após algum tempo desceu da escrivaninha, passou pela cadeira vagarosamente e sentou-se na cama. A arrumadeira relaxara o corpo, limpara o sangue da boca, não esqueceu de voltar o quadro da santa para o lugar devido antes de sair do quarto. Seguiu direto para a cozinha e começou a preparar o almoço, triplicou na quantia.
                Enquanto cozinhava o som do nheco-nheco, o toque-toque e as batidas dos corpos foram se tornando engraçados para L’mour, o som junto com a sua imaginação lhe divertia a beça. A cozinheira montara com a harmonia que vinha do quarto e uma letra de sua autoria, acabou criando uma música. Por volta das 14:00h Delícia chamou a empregada pelo nome e esta respondeu lhe da cozinha:
                - Senhora!
                - Traga para nós o almoço, eu e Lamas vamos almoçar aqui na cama.
                L’mour improvisou uma padiola com duas rodas presas a um eixo equidistante ao centro do tabuleiro preso ao eixo. Levou de tudo um pouco que tinha pronto, arroz, feijão, carne de porco, quiabo, tomate verdolengo, abobrinha batidinha com ovos, duas pamonhas salgadas com linguiça, batatinha frita na banha de porco, uma jarra de suco de jaca. Quando L‘mour chegou no corredor do quarto viu várias roupas de cama jogada no piso, ela desviou-se das roupas, aproximou da porta do quarto que estava aberta e perguntou:
                - Posso entrar Dona delícia?
                - Claro L’mour! Adentre meu bem!
                A serviçal ficou estarrecida com o que viu, mas disfarçou perfeitamente, Jacinto e Delícia estavam nus! Lamas estava com as costa na cama, Delícia descansava uma perna entre as pernas de Jacinto, uma mão lhe afagava o peito, a outra deslizava pela barriga até ficar por debaixo da perna que descansava entre as pernas de Lamas. L’mour descarregou o repasto da padiola improvisada em cima de uma mesinha que estava ao pé da cama.
                - Empurre a mesinha para perto da cama L’mour. Disse a patroa derretendo em suor.
                A prestativa menina assim fez e ao sair do quarto ouviu a recomendação da patroa:
                - Quando for 17::00h traga um lanche para nós e as 20:00h você pode servir o jantar e ir deitar e não esqueça de pegar as roupas de cama sujas e lavar no mesmo dia e nos traga outras limpas todas as manhãs no horário do café.
                _ Sim senhora.
                Os dias seguiram conforme fora combinado. No começo era engraçado para L’mour, sempre aquele som toque-toque, nheco-nheco da mola quebrada e as batidas das pernas. O café da manhã, o almoço e jantar seguiam nos horários, não havia gemidos, mas à noite o som começava a incomodar a vizinhança, a janela do quarto de Delícia ficava junto a calçada e eles não fecham a janela permanecendo noite e dia aberta, assim sendo, o som daquela orquestra invadia todos os espaços possíveis. No final do segundo dia a empregada começou a se sentir incomodada com a situação. Ela sabia que no sábado cedo iria para casa, pensou que aquilo terminaria logo, mas não! No terceiro dia começou a se irritar, a vizinhança já olhava para a casa acintosamente, as pessoas já estavam espalhando um babado a respeito da situação, até que, no quarto dia aconteceu algo digamos “esbaforido” com a vizinhança.
O relógio da parede do quarto de L’mour marcava 11:30h da noite e a folhinha com uma imagem de paisagem informa que ainda era sexta-feira. A empregada e a vizinhança foram acordadas por um bramido estrídulo, forte longo e grosso, seguido por um uivo agudo que durou quase um minuto, na sequência ao urro e ao gemido veio um grito:
                - Essa esbórnia tem que acabar! Senhor, eu não aguento mais!
                L’mour surtara, tivera um ataque psicótico, descabelada, com olheiras fundas e com lábios trémulos adentrou no quarto da patroa e lhe chamou de rampeira, quenga no cio. Ninguém sabe por que, mas o pudor voltou a casa, naquela noite Jacinto Lamas levou L’mour até sua casa, adiantou lhe um mês de salário e lhe deu férias, não despediram, mas antes de Lamas dar as costas a moça ouviu:

                - Senhor, tudo tem limites, os senhores ultrapassaram os meus limites, mas não os julgo, beijo é um caminho sem fim.

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