Capítulo IV
Corpos em Fúria
Delícia quando mudou-se para a rua do Brejo Raso era solteira e morava
sozinha, seus pais moravam no nordeste e a filha mudara para estudar, Delícia
convencera o pai a morar sozinha, mas teria uma ajudante, L’mour, filha de Dona
Ricotinha, que mora no Bairro dos Arranca-tocos, na Rua do Pau-furado,
nº100. L’mour era uma adolescente esperta no lavar, cozinhar, passar, calada
quando não chamada mas sempre tinha assunto para horas a fio se alguém lhe
puxasse a língua., Menina, alta,
esbelta, pele muito branca e de cabelo muito cheio, avolumado, seu cabelo era
seu maior pesadelo, não domava-o, pois ela era descendente de negros, pele
muito clara, mas os cabelos eram rebeldes, o povo adorava seu cabelo, mas ela o
odiava.
Delícia desceu a Rua Brejo Alegre em direção a venda
do senhor Maldonado para fazer compras, naquele dia L’mour estava muito
atarefada, lavando a roupa de cama, mesa e banho, no dia seguinte passaria
todas. Delícia não percebera, mas comprou tanto que levar tudo sozinha era
impossível, o funcionário do senhor Maldonado, Faísca, havia saído para fazer
um entrega, enquanto Delícia pensativa olhava para as compras, chegou Fumaça,
filho do vizinho da venda, avisando que Faísca caíra numa
ribanceira com a bicicleta cargueira e demoraria, o pneu furou, o guidão
entortou, o retorno do funcionário levaria um bom tempo.
Jacinto Lamas estava na venda, não estava bebendo nem
comprando, entrara na venda há poucos minutos, se apresentou a Delícia com um
gesto de respeito seguido de desculpas por aproximar-se dela, em seguida
ofereceu para carregar as compras. Delícia olhou aquele homem muito forte,
discreto no falar e de olhos que lhe incomodava, não ter percebido a presença
daquele homem na venda lhe incomodava, uma mistura de indignação e frustação
remoía parte do corpo abaixo do estômago. Seu corpo fora explorado pelos olhos
daquele que ela não o percebera?
Resoluto, tomou todas as compras da senhora em seus
braços e disse:
- Senhora, onde posso depositar seus
pertences?
Delícia andou em direção ao vendeiro, pagou as compras
e lhe disse que tivesse um bom dia, antes de retornar àquele que estava de
posse de suas compras, despediu do proprietário da venda.
- Por favor, me acompanhe, o caminho não é longo, mas
é íngreme e a rua não é plana, tome cuidado, não quero que o senhor se machuque
por mim.
Eles não seguiram em fila
indiana, não muito próximo, o suficiente para um perceber o outro, seguiram
calados, seus olhares eram fixos à frente, nada a esquerda ou a direita lhes
chamavam a atenção, o ritmo das passadas era simplesmente simétrico, quando a
perna direita dava um passo, a direita do outro também, direita direita,
esquerda esquerda.
A cadência
das pernas não era a mesma da respiração, curta e rápida de um, longa e lenta
do outro, ora um era longo, ora era o outro. Subiram cinco quadras, porém, antes
de terminar a quinta quadra, Delícia adiantou-se, passou à frente do seu
ajudante. Esticou o braço direito e com o dedo indicador lhe mostrou qual a
casa que ele deveria se dirigir. Lamas esperou o suficiente para a senhora
abrir a porta, feito isto adentrou a casa, depositou as compras sobre a mesa da
cozinha, a porta da entrada já estava fechada. L’mour estava lavando roupas no
quintal ao fundo da casa.
Quando
Jacinto Lamas virou, o inusitado aconteceu.
Delícia levou-o para o quarto, e
lá ficaram por quatro dias e quatro noites sem sair. L’mour percebera que já
era hora de começar o almoço, entrou na cozinha por uma porta que liga com o
quintal e viu as compras, por um momento ficou confusa, a patroa não lhe
chamara ao chegar em casa com as compras, não lhe pedira para começar a
preparar o almoço e não tinha ao alcance de suas vistas. Uma touca de cor
vermelha na cabeça, vestido azul até os tornozelos, com um babado trabalhado a
mão, as mangas eram longas de cor ametista, o vestido era justo o suficiente
para delinear as curvas do corpo, um decote que esbanjava a saliência dos seios,
dois pequenos relevos empurravam o tecido para frente.
Após alguns segundos estática na
cozinha, L’mour ouviu um baralho que vinha do quarto da patroa, às vezes era um barulho da mola
do colchão. Pode ser mola quebrada, pensou L’mour, a empregada respirava
devagar e silenciosamente, seus ouvidos eram todos do quarto. Percebeu em pouco
tempo que o pé da cama batia, lembrara que a cama precisou de um calço, pois
tinha uma perna descompassada com as outras três, às vezes o barulho da mola
era único, ora era acompanhado pelo toque-toque do pé-manco da cama; ora era só
o toque-toque da cama. L’mour agora percebia outro som, algo que se batia,
ritmados ou não este som sempre era acompanhado pelo toque-toque da cama ou o
barulho da mola quebrada. Mas o que se chocava?
“Só se é curioso na proporção de
quanto se é instruído”. L’mour tinha lá seus conhecimentos. Pe-ante-pé a curiosidade moveu-se em direção a fonte dos
barulhos, muito precavida, L’mour
conhecia todas as frestas da casa, afinal pensava ela, a gente nunca sabe do
amanhã, é melhor nos prevenir. Ela não parou perto da porta do quarto, passou
direto e entrou no quarto ao lado, tirou as chinelas, pegou uma toalha, forrou
uma escrivaninha que estava junto a parede que fazia divisa com o quarto da
patroa. Subiu primeiro em uma cadeira, depois alcançou a escrivaninha com
facilidade, tirou da parede imagem de Nossa Senhora dos Prazeres, na pontinha
dos pés espiou o outro quarto.
L’mour contraiu os músculos das
pernas, esfregou as mãos em seu ventre e mordeu o lábio inferior, sangrou, mas
pouco, após algum tempo desceu da escrivaninha, passou pela cadeira
vagarosamente e sentou-se na cama. A arrumadeira relaxara o corpo, limpara o
sangue da boca, não esqueceu de voltar o quadro da santa para o lugar devido
antes de sair do quarto. Seguiu direto para a cozinha e começou a preparar o almoço,
triplicou na quantia.
Enquanto cozinhava o som do
nheco-nheco, o toque-toque e as batidas dos corpos foram se tornando engraçados
para L’mour, o som junto com a sua imaginação lhe divertia a beça. A cozinheira
montara com a harmonia que vinha do quarto e uma letra de sua autoria, acabou
criando uma música. Por volta das 14:00h Delícia chamou a empregada pelo nome e
esta respondeu lhe da cozinha:
- Senhora!
- Traga para nós o almoço, eu e
Lamas vamos almoçar aqui na cama.
L’mour improvisou uma padiola
com duas rodas presas a um eixo equidistante ao centro do tabuleiro preso ao
eixo. Levou de tudo um pouco que tinha pronto, arroz, feijão, carne de porco,
quiabo, tomate verdolengo, abobrinha batidinha com ovos, duas pamonhas salgadas
com linguiça, batatinha frita na banha de porco, uma jarra de suco de jaca.
Quando L‘mour chegou no corredor do quarto viu várias roupas de cama jogada no
piso, ela desviou-se das roupas, aproximou da porta do quarto que estava aberta
e perguntou:
- Posso entrar Dona delícia?
- Claro L’mour! Adentre meu bem!
A serviçal ficou estarrecida com
o que viu, mas disfarçou perfeitamente, Jacinto e Delícia estavam nus! Lamas
estava com as costa na cama, Delícia descansava uma perna entre as pernas de
Jacinto, uma mão lhe afagava o peito, a outra deslizava pela barriga até ficar
por debaixo da perna que descansava entre as pernas de Lamas. L’mour
descarregou o repasto da padiola improvisada em cima de uma mesinha que estava
ao pé da cama.
- Empurre a mesinha para perto
da cama L’mour. Disse a patroa derretendo em suor.
A prestativa menina assim fez e
ao sair do quarto ouviu a recomendação da patroa:
- Quando for 17::00h traga um
lanche para nós e as 20:00h você pode servir o jantar e ir deitar e não esqueça
de pegar as roupas de cama sujas e lavar no mesmo dia e nos traga outras limpas
todas as manhãs no horário do café.
_ Sim senhora.
Os dias seguiram conforme fora
combinado. No começo era engraçado para L’mour, sempre aquele som toque-toque,
nheco-nheco da mola quebrada e as batidas das pernas. O café da manhã, o almoço
e jantar seguiam nos horários, não havia gemidos, mas à noite o som começava a
incomodar a vizinhança, a janela do quarto de Delícia ficava junto a calçada e
eles não fecham a janela permanecendo noite e dia aberta, assim sendo, o som
daquela orquestra invadia todos os espaços possíveis. No final do segundo dia a
empregada começou a se sentir incomodada com a situação. Ela sabia que no
sábado cedo iria para casa, pensou que aquilo terminaria logo, mas não! No
terceiro dia começou a se irritar, a vizinhança já olhava para a casa
acintosamente, as pessoas já estavam espalhando um babado a respeito da
situação, até que, no quarto dia aconteceu algo digamos “esbaforido” com a
vizinhança.
O relógio da
parede do quarto de L’mour marcava 11:30h da noite e a folhinha com uma imagem
de paisagem informa que ainda era sexta-feira. A empregada e a vizinhança foram
acordadas por um bramido estrídulo, forte longo e grosso, seguido por um uivo agudo
que durou quase um minuto, na sequência ao urro e ao gemido veio um grito:
- Essa esbórnia tem
que acabar! Senhor, eu não aguento mais!
L’mour surtara, tivera um ataque
psicótico, descabelada, com olheiras fundas e com lábios trémulos adentrou no
quarto da patroa e lhe chamou de rampeira, quenga no cio. Ninguém sabe por que,
mas o pudor voltou a casa, naquela noite Jacinto Lamas levou L’mour até sua
casa, adiantou lhe um mês de salário e lhe deu férias, não despediram, mas
antes de Lamas dar as costas a moça ouviu:
- Senhor, tudo tem limites, os
senhores ultrapassaram os meus limites, mas não os julgo, beijo é um caminho
sem fim.
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